Este livro nos coloca diante de dois personagens inquietantes da nossa cultura: Clarice Lispector e Julio Lerner. A primeira é uma das mais importantes escritoras brasileiras cujo nome encontra-se listado na literatura universal. Só não estava listado em Tchetchelnik (Ucrânia), sua cidade natal, cuja memória histórica foi maculada pelo anti-semitismo, pelo fogo e pelo silêncio da história oficial. Para a população daquela cidade, Clarice Lispector somente passou a "existir" após o dia 10 de dezembro de 2002, data em que foi descerrada uma placa comemorativa junto à porta de entrada da biblioteca local.
O segundo personagem, autor deste livro e força mobilizadora da memória brasileira, é Julio Lerner: roteirista, diretor de importantes programas de TV, escritor e defensor dos direitos humanos. Como repórter – com grandes méritos premiados por suas investidas profissionais –, realizou durante vinte e seis anos consecutivos programas voltados ao resgate da memória no campo da literatura, cinema, artes plásticas, música popular brasileira etc. Neste livro, a trilha do seu cotidiano voltou-se para a busca da memória silenciada de Clarice Lispector, cuja história de vida está projetada neste diário. Se conheço a capacidade de Julio Lerner de criar, aqui está semeada a idéia de uma trama que, permeando a ficção e a realidade, dará origem a um filme/documentário.
Através deste diário seguimos as "pegadas" do repórter que, na Ucrânia, saiu em busca das origens da família Lispector. Em sessão permanente de trabalho, o nosso repórter procura descobrir, in memorian, o código de "pertencimento" que liga Clarice à sua terra natal a Ucrânia. Aliás, um sentimento que Clarice sempre procurou omitir, esquecer ou... simplesmente, não falar. Com tal postura, Clarice colaborou para reforçar o abismo imposto pela história oficial ucraniana que não tem grande interesse em divulgar seus rasgos de anti-semitismo.
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